Sobra tempo para criar?
Para quem não escolheu uma carreira artística, pensar em arte torna-se uma raridade no dia-a-dia. A ideia de criar alguma coisa? Vira um bicho-papão completo.
A verdade é que vivemos num sistema que semeia repressão antes mesmo de pegarmos pela primeira vez num lápis. Somos ensinados a admirar e a copiar, quase nunca a fazer. A arte só conta como entretenimento – só é validada enquanto processo - até atingirmos uma idade em que o que fazemos se torna comparável. Em que pode ser exposto, medido, destacado perante outros, ou rejeitado por não corresponder às expectativas, traçadas pelo Outro antes de pelo Próprio.
A partir daí somos ensinados que provavelmente iremos crescer sem talento, sem criatividade, sem meios para sobreviver num mercado impiedoso para o qual partiríamos em desvantagem. E, portanto, afastamo-nos da expressão que não nos recompensa financeiramente. Afastamo-nos gradualmente da possibilidade de fazer arte apenas porque fazê-lo nos dá prazer.
As páginas em branco aterrorizam, o lápis de cor a passar margens horripila, o jeito nunca bem-apanhado para o desenho desmoraliza, a escultura parece demorar mais tempo a limpar que a mexer no barro, os instrumentos musicais são postos num canto à primeira corda que não sai como o tutorial de YouTube.
Aprender, praticar, criar, exigem esforço, tempo, e algum tipo de investimento mental para encontrar o tempo. Torna-se complicado pelo meio da cacofonia do dia-a-dia.
Eu acredito que todos tenhamos uma vontade de criar, de nos desafiar criativamente a fazer algo que vejamos concluído com orgulho. Nem tudo são Mona-Lisas. Um desenho feito como foi imaginado. Um vídeo pensado às tantas da noite. O podcast que poderia ter sido esta conversa entre amigos. A música que inventamos a cantarolar ao lavar a louça. O poema que nos atravessou a mente de repente numa tarde de primavera, mas nunca chegou a sair para o papel.
De quantos poemas incríveis já fomos privados por estes não terem sido devidamente escritos a tempo, de alguém, algum dia, poder partilhá-los com os restantes mortais?
Acredito também que para a esmagadora maioria de nós essa vontade é, como tantas outras, moída até ao mais fino eletrão pelas rodas dentadas do capitalismo.
Sobra tempo para criar?
Entre horas em transportes que mal funcionam – quando funcionam – a ter que arrumar uma casa – para quem tem o privilégio de ter uma casa onde morar – a ter que cuidar de filhos, de pais, de relacionamentos, de amigos, de família? É possível sequer respirar neste sistema? Sobra tempo para hobbys, interesses, gostos? Uma personalidade? Há tempo para nos sentarmos dois minutos connosco mesmos?
Infelizmente, parecemos muito mais sujeitos a um ritmo social acelerado e em aceleração. Produzir, produzir, produzir. Acordar, comer à pressa, tomar banho a correr, engolir a comida a caminho, ir a correr – já estou atrasado, foda-se, outra vez – aproveitar o caminho, aproveitar o almoço, zuuuuummm, já passou, correr para casa, já são quase 21h, ainda tenho jantar para fazer, convinha tomar um banho, já mal há tempo, já devia estar a dormir há horas, daqui a nada estou no trabalho outra vez. Temos que aproveitar as promoções, os cupões, os descontos. Temos que entregar o trabalho no prazo. Olha as inscrições a fechar. O fim do mês é que nunca mais chega. E o fim do Mundo que se vê lá fora? Eu cá gostava era de ver a 47 a passar.
Sobra tempo para alguma coisa?
Uma coisa ou outra, se tiveres o privilégio. Se os teus turnos não forem 13h à chuva para juntar pouco mais que um salário mínimo. Se não dividires o teu quarto com estranhos. Se tiveres dinheiro para um material e o luxo de uma tarde livre para materializar um pedaço de sonho.
Lutar pelo tempo livre é das maiores tarefas que temos pela frente enquanto espécie.
Enquanto a Direita que, nas suas corridas mundiais à propaganda neoliberal suicida, investe biliões todas as décadas em criar narrativas baseadas no individualismo e na exaustão direcionada a acumular Capital, é necessário redescobrirmos o poder de parar, de olhar para dentro, de redescobrir a criatividade. O grindwashing à realidade humana falhará.
Num empurrão final contra a consciência popular, querem que releguemos à Inteligência Artificial as capacidades criativas que já somos quotidianamente bloqueados de desenvolver.
Alguém que não olha para dentro arrisca-se a ver o Mundo com os olhos dos outros.
Criar é sim uma necessidade e deve ser, sim, um direito. Fazer é uma parte importante de viver. Conhecer-nos e explorar a nossa criatividade torna-se essencial perante a realidade de que esta vida é única, e a interação com a realidade interna e externa completa verdadeiramente a nossa vivência.
Devemos olhar como uma pequena rebelião para o processo que enfrenta anos, décadas, de traumas, condicionamento social e feridas nunca cicatrizadas. E fazer o rabisco. Sem medo, sem pressão. Escrever um rascunho. A medo, aos poucos. Também se faz. Devemos pegar no pincel, arrumar um cantinho para o barro, juntar um dinheiro para a guitarra.
A vida é demasiado curta para ser vivida à pressa a caminho do trabalho. E bem sei que arranjar mais tempo não é fácil. Mas estou comprometido em arranjar tempo que me deixe ser eu mesmo. Que aos poucos e poucos me permita recuperar o sentimento de que a minha vida é realmente minha. Que me deixe sair, uns minutos que seja, da trincheira que o meu trajeto diário escavou no chão, e deixar uma marca num caminho menos percorrido.
Tem que sobrar tempo para criar.
